quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
Espera
Quem há no mundo que aflições não passe,
Que dores não suporte?
Mais ou menos d’angústias cabe a todos,
A todos cabe a morte.
A vida é um longo fio negro d’amarguras
E de longo sofrer;
Semelha a noite; mas fagueiros sonhos
Podem de noite haver.
Por que então maldiremos este mundo
E a vida que vivemos,
Se nos tornarmos do Senhor mais dignos,
Quanto mais dor sofremos?
Quantos cabelos temos, Ele o sabe;
Ele pode contar
As folhas que há no bosque, os grãos d’areia
Que sustentam o mar.
Como pois não será ele conosco
No dia da aflição?
Como não há de computar
As dores do nosso coração?
Como há de ver-nos, sem piedade, o rosto
Coberto d’amargura;
Ele, senhor e pai, conforto e guia
Da humana criatura?
Se o vento sopra, se se move a terra
Se iroso o mar flutua;
Se o sol rutila, se as estrelas brilham,
Se gira a branca lua;
Deus o quis, Deus que mede a intensidade
Da dor e da alegria,
Que cada ser comporta – num momento
D’arroubo ou d’agonia!
Embora pois a nossa vida corra
Alheia da ventura,
Além da terra há os céus,e Deus protege
Toda criatura!
Viajor perdido na floresta à noite,
Assim vago na vida;
Mas sinto a voz que me dirige os passos
E a luz que me convida.
Gonçalves Dias
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